Roberto Malvezzi

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O avanço da ditadura civil brasileira - 08/10/2015



 

Em conversa com assessores políticos de várias entidades importantes em nível nacional – em Brasília – perguntávamos qual a chance de uma nova ditadura militar diante da chamada crise política brasileira.

Segundo um deles, em conversa com pessoas do Exército, também ex-ministros da defesa, o Exército teria criado mecanismos internos para não permitir mais aventuras pessoais de seus membros em tempos obscuros como esse. Portanto, nesse momento as chances de um golpe militar – ao menos nesse momento – não existiriam.

Entretanto, ressaltou: “não é necessária a ditadura militar. O que pode avançar no Brasil é a ditadura civil”.

Nos movimentos sociais costuma-se dizer que a ditadura de 1964 foi “civil-militar”, dado o peso que os empresários brasileiros e a mídia tradicional tiveram, juntamente com as forças externas, sobretudo, o papel da CIA no golpe.

Talvez hoje essa possibilidade esteja ficando mais clara. Alguns sinais políticos a indicam.

A população que elegeu o atual governo foi de 54,5 milhões de brasileiros. Mas um grupo de parlamentares pensa passar por cima da vontade de milhões de brasileiros e impor sua vontade política pelo impedimento da atual presidente.

O TCU, que aprovou as “pedaladas fiscais” de FHC, agora reprovou as pedaladas fiscais do atual governo. Os fatos são os mesmos, a legislação é a mesma, mas as decisões são diferenciadas. Então, ou o TCU errou com FHC, ou está errando agora com Dilma.

O TSE reabriu investigações sobre as contas de campanha de Dilma. Só dela, embora PMDB, PSDB e PT tenham recebido 2/3 de seus financiamentos exatamente das mesmas empreiteiras.

Outro mote é o pagamento de impostos. Quem reclama são os empresários – que os repassam para o preço dos seus produtos – e a classe média tradicional. O povo brasileiro não reclama do pagamento de impostos. Qualquer pessoa simples sabe que eles são necessários para sustentar os serviços públicos.

O que se reclama é da qualidade dos serviços – saúde, educação, limpeza pública, programa habitacional, saneamento -, ou então, a destinação de grande parte dos impostos para bancar a especulação financeira dos que ganham com dívida pública. Portanto, o povo não faz coro com essa histeria empresarial que está inclusive em comerciais de TV.

Outro indicativo é a agressão – Mantega, Padilha, Instituto Lula, João Pedro Stedile, etc. – que revela a alma intolerante e fascista daqueles que não sabem viver fora do poder. Sentem-se impunes, protegidos e até como cumpridores de seus deveres cívicos.

O mais nefando aconteceu no velório de Eduardo Dutra, com o panfleto “petista bom é petista morto”. Esse pessoal vem com sangue nos olhos e cuspindo ódio.

A mesma parcela da mídia tradicional que sustentou os golpes anteriores, todos os dias noticia em letras garrafais fatos, suspeitas e insinuações, desde que sejam contra o governo atual. Passam-se os anos, a cobra muda de casca, mas não perde veneno.

Por fim, Aécio já disse que todos esses fatos não indicam golpe, já que as instituições democráticas estão agindo plenamente.  É verdade – e é um elogio a atual presidenta -, mas é preciso não esquecer que, segundo a Constituição Brasileiro de 1988, “todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”, e não das instituições. Portanto, elas estão ai para garantir a decisão popular e não para golpeá-la.

Todas essas manobras para entregar o Brasil nas mãos de Eduardo Cunha, o íntegro. Mas, depois, se o golpe se consumar, ele será atirado no lixo da história por seus próprios comparsas.

Quem no Brasil acha que as ditaduras vem somente pelos militares, é bom desconfiar dos ditadores civis.